Por: Wladimir K. A. Magalhães – Engenheiro Electricista
Fui visitar um amigo mecânico a casa. Uma casa simples, monofásica, como tantas outras nos nossos bairros. Enquanto conversávamos, abri o quadro eléctrico — hábito de quem trabalha nesta área. À primeira vista estava tudo em ordem: aparelhos alinhados na calha, tampa fechada, etiquetas escritas à mão. Ele tinha orgulho naquele quadro. «Tenho diferencial», disse-me, «estou protegido contra choques.»
Não estava. No quadro não havia disjuntor geral: o único aparelho de entrada era um interruptor diferencial tetrapolar, pensado para redes trifásicas, com a fase ligada apenas ao pólo 1 e o neutro ao borne N. A montante, na portinhola, só havia fusíveis de 63 A. Ligação à terra, nenhuma: nem eléctrodo, nem condutor de protecção. E a cozinha estava protegida por um disjuntor de 63 A, ligado a um cabo de 2,5 mm². Um quadro que parecia normal escondia erros que, juntos, podem acabar num choque eléctrico ou num incêndio.
Neste artigo conto o que encontrei e explico, com números, porque é que cada um destes erros é perigoso: o que um diferencial faz e não faz, quando e como se pode ligar um diferencial tetrapolar numa casa monofásica, porque é que um disjuntor de 63 A não assegura a protecção contra sobrecarga de um cabo de 2,5 mm², como deve ser organizado um quadro — da casa económica à moradia com quadros parciais —, quando escolher disjuntor, interruptor diferencial ou disjuntor diferencial, e porque é que a ligação à terra é parte essencial da protecção contra choques. Ao longo do texto, cada ponto técnico é ligado ao que exigem os decretos angolanos — o Regulamento de Licenciamento de Instalações de Utilização, o Estatuto do Técnico Responsável e o Regulamento do Fornecimento.
Neste artigo: O que encontrámos · O diferencial não é disjuntor geral · 63 A num cabo de 2,5 mm² · Como se organiza um quadro · Disjuntor, diferencial ou os dois · A ligação à terra · O que diz a lei angolana · Perguntas frequentes

O que encontrámos
Em muitas casas dos nossos bairros em Angola — no Zango, em Viana, no Camama, na Camunda, no Quioxe, no Riceno e em tantos outros — os erros repetem-se, quase sempre em instalações feitas «por quem sabe um bocadinho»:
| Erro | O que estava | Consequência |
|---|---|---|
| 1. Sem disjuntor geral | Diferencial tetrapolar como único aparelho do quadro; a montante, só fusíveis de 63 A na portinhola | O diferencial não protege contra sobreintensidades; os fusíveis de 63 A não estão dimensionados para os cabos da casa |
| 2. Diferencial por confirmar | Fase no 1.º pólo, neutro no N, 2.º e 3.º pólos vazios; modelo sem esquema visível | Compatibilidade monofásica e funcionamento do botão de teste por verificar |
| 3. Cozinha sobredimensionada | Disjuntor de 63 A num cabo de 2,5 mm² | Numa sobrecarga prolongada, o cabo aquece sem que o disjuntor actue |
| 4. Sem ligação à terra | Nem eléctrodo, nem condutor de protecção (PE) | Um defeito numa carcaça metálica fica à espera de alguém que lhe toque |
O morador não estava desprotegido por falta de aparelhos. Estava desprotegido porque os aparelhos estavam no lugar errado e com o calibre errado.
O diferencial não é disjuntor geral
O interruptor diferencial (em inglês, RCCB; norma IEC 61008-1) faz uma única coisa: compara a corrente que entra com a que sai pelos condutores que passam pelo seu toro. Se houver diferença — corrente a fugir para a terra, por exemplo através de uma pessoa —, abre o circuito. Com uma sensibilidade de até 30 mA, é uma protecção adicional contra choques eléctricos: reduz muito o risco, mas não substitui o isolamento, os invólucros, o condutor de protecção nem a equipotencialização. Um contacto simultâneo com a fase e o neutro, por exemplo, pode não gerar a corrente residual necessária ao disparo.
O que o diferencial não faz é medir sobrecargas ou curtos-circuitos. Um curto-circuito entre fase e neutro não cria diferença entre a corrente que entra e a que sai: o diferencial não vê nada. Por isso, a própria norma do aparelho pressupõe uma protecção contra sobreintensidades associada — um disjuntor a montante com corrente estipulada não superior à do diferencial, ou a combinação que o fabricante indicar. Neste caso verificámos o que havia a montante: apenas os fusíveis de 63 A da portinhola. Há, portanto, protecção a montante, mas com um calibre que, por si só, não assegura a protecção contra sobrecarga dos cabos de 1,5 e 2,5 mm² — essa tem de ser garantida pelo disjuntor de cada circuito, e a coordenação do diferencial com os fusíveis tem de ser confirmada nos dados do fabricante. Quando existe um limitador ou disjuntor da distribuidora, as funções que assegura dependem do aparelho instalado. Deve verificar-se se os aparelhos existentes asseguram o corte geral e a protecção do alimentador, do diferencial e dos circuitos — os fabricantes admitem diferentes combinações de fusíveis, disjuntores e diferenciais. Neste exemplo, recomenda-se um disjuntor geral bipolar dimensionado para a instalação. O Decreto n.º 39/04 (art. 14.º, n.º 3, al. d)) manda o técnico responsável verificar e ensaiar precisamente estas protecções durante a execução.
Diferencial tetrapolar numa casa monofásica
Um diferencial tetrapolar pode ser usado numa instalação monofásica — mas só quando o fabricante o admite e com os terminais que o seu esquema indica. O ponto crítico é o circuito do botão de teste, ligado entre pólos definidos pelo fabricante. Há modelos em que esse circuito precisa de 400 V entre fases e que, por isso, não podem ser usados em monofásico. Noutros, a fase num só pólo e o neutro no N é uma ligação admitida. Noutros ainda, a fase tem de ficar num pólo determinado: se for ligada a outro, o botão de teste fica sem tensão — carrega-se e nada acontece, e o morador conclui que o aparelho está avariado, ou nunca chega a testá-lo. No caso que vimos, sem esquema legível no aparelho, o diagnóstico rigoroso era «compatibilidade e funcionamento por verificar».
Nos modelos que admitem a ligação monofásica por dois pólos, a fase passa pelo pólo de fase indicado pelo fabricante e o neutro pelo pólo marcado N; os outros dois pólos ficam livres. A escolha do pólo de fase tem de garantir também a alimentação do circuito do botão de teste — não basta escolher um borne disponível. No modelo que usamos como exemplo na Figura 2 — um ABB FH204 AC de 63 A e 30 mA, tal como demonstrado no vídeo «Como ligar circuitos mono, bi e tri em um IDR tetrapolar», do canal Eletricity —, esse circuito está entre o 3.º pólo e o N: com a fase no 1.º ou no 2.º pólo o botão não actua; com a fase no 3.º pólo, junto ao N, o teste funciona. Depois de ligar, carrega-se no botão: se não disparar, verifica-se a alimentação do circuito de teste e o estado do aparelho.
Evite improvisar pontes para fazer a fase atravessar vários pólos: se a corrente passar sempre no mesmo sentido, o toro vê o dobro da corrente de carga como se fosse uma fuga e o aparelho dispara assim que se liga uma carga; e, mesmo com as correntes equilibradas, nada garante que o fabricante admita essa ligação. Numa instalação monofásica nova, a solução mais simples é um diferencial bipolar (2P), mais fácil de montar e de verificar.

Um diferencial que nunca é testado é um diferencial em que ninguém pode confiar. Use o botão de teste com a periodicidade que o fabricante indica e, se não disparar, chame um técnico. O botão não substitui os ensaios com instrumento nem verifica a terra.
63 A num cabo de 2,5 mm²
O disjuntor de um circuito existe, antes de mais, para proteger o cabo. A regra é simples: a corrente estipulada do disjuntor não pode ultrapassar a corrente que o cabo admite nas condições reais de instalação. Explicámos esta regra em pormenor no artigo Disjuntores de baixa tensão: porque é que dois disjuntores de 63 A não são iguais; aqui aplicamo-la à cozinha que encontrámos.
Um cabo de cobre isolado a PVC de 2,5 mm², com dois condutores carregados em tubo embebido (método B1 da IEC 60364-5-52), admite cerca de 24 A a 30 °C. A 40 °C — temperatura que se atinge facilmente num tecto ou numa parede ao sol em Angola — o valor desce para cerca de 21 A. Se o tubo levar três circuitos agrupados, desce para perto de 15 A. As normas angolanas do INIQ para cabos (NA 13 a NA 17, de 2009) definem a construção e os ensaios dos condutores; as correntes admissíveis vêm das tabelas da IEC 60364-5-52.

| Condição do cabo de 2,5 mm² | Corrente admissível (Iz) | Disjuntor máximo |
|---|---|---|
| 30 °C, circuito isolado | ≈ 24 A | 20 A |
| 40 °C, circuito isolado | ≈ 20,9 A | 20 A |
| 40 °C, 3 circuitos no mesmo tubo | ≈ 14,6 A | 13 A |
| Disjuntor encontrado | — | 63 A: 2,6 a 4,3 vezes acima de Iz |
Subir a secção ajuda, mas não resolve tudo: nas mesmas condições (40 °C e três circuitos agrupados), um cabo de 4 mm² admite cerca de 19,5 A — ainda abaixo dos 20 A. O calibre decide-se depois de conhecer a corrente que o circuito tem de alimentar e as condições reais da instalação.
Há ainda uma questão de escala. O Regulamento do Fornecimento de Energia Eléctrica (Decreto n.º 27/01, art. 6.º, n.º 2) prevê alimentação trifásica para potências instaladas acima de 9,9 kVA, salvo acordo prévio do fornecedor; a 220 V, 9,9 kVA correspondem a cerca de 45 A. A 220 V, 63 A correspondem a cerca de 13,9 kVA — mais do que esse limite de referência para a alimentação monofásica. A comparação é ilustrativa: os 9,9 kVA não demonstram, por si só, a potência contratada nem o limite efectivo desta instalação. Com fusíveis de 63 A a montante, nenhum aparelho estava dimensionado para proteger o cabo de 2,5 mm² contra sobrecargas: num curto-circuito franco, o disjuntor ou os fusíveis podem actuar; numa sobrecarga prolongada — vários equipamentos na mesma tomada —, o cabo aquece sem que nada actue. Falámos do que acontece à potência e à tensão nestas redes no artigo Estabilizadores de tensão em redes de baixa tensão degradadas.
Na prática, numa casa económica, a cozinha divide-se assim: tomadas de uso geral em 2,5 mm² com disjuntor de 16 A (20 A só quando o cabo e a temperatura o permitem); placa ou forno eléctrico num circuito próprio, em 6 mm², com disjuntor de 32 A; frigorífico, micro-ondas e máquina de lavar distribuídos de forma a não concentrarem carga numa única tomada. São valores ilustrativos: dependem da potência dos equipamentos, do método de instalação, do agrupamento e da queda de tensão. Quando há projecto, este dimensionamento faz parte obrigatória da memória descritiva (Decreto n.º 40/04, art. 6.º, n.º 2, al. c)).
Um disjuntor maior não resolve um circuito que dispara. Transfere o problema para o cabo — e o cabo não avisa antes de arder.
Como se organiza um quadro eléctrico
Casa económica: um quadro, bem pensado
Numa habitação pequena, monofásica, basta um único quadro, organizado de cima para baixo: o disjuntor geral bipolar, com calibre ajustado à potência requisitada e aos cabos da entrada; um ou dois interruptores diferenciais de 30 mA, que agrupam os circuitos; e os disjuntores de cada circuito, escolhidos pelo cabo. Dividir os circuitos por dois diferenciais tem uma vantagem prática: um defeito numa tomada não deixa a casa inteira às escuras.
Casas maiores: quadro geral e quadros parciais
Numa moradia de vários pisos, com piscina, portão automático ou cozinha com muitos equipamentos, a solução é ramificar: um quadro geral com o disjuntor geral (tetrapolar, se a alimentação for trifásica) e o descarregador de sobretensões (DPS), que alimenta quadros parciais por piso ou por zona. Cada quadro parcial tem os seus diferenciais e disjuntores. A protecção a montante deve ser selectiva em relação à de jusante, para que um defeito num piso não desligue a casa toda — o tema da selectividade, que tratámos no artigo sobre disjuntores de baixa tensão.
A lei angolana dá forma a esta organização. Quando há projecto, o Decreto n.º 40/04 exige o esquema eléctrico dos quadros, com as características dos aparelhos (art. 6.º, n.º 3, al. d)), e a localização dos aparelhos de corte e protecção nas plantas (art. 6.º, n.º 4); e prevê que o distribuidor aprecie a coordenação das protecções do edifício com as da rede (art. 8.º, n.º 1, al. b)).

| Circuito | Secção | Disjuntor | Diferencial |
|---|---|---|---|
| Iluminação | 1,5 mm² | 10 A | 30 mA recomendado |
| Tomadas de uso geral | 2,5 mm² | 16 A | 30 mA |
| Casa de banho | 2,5 mm² | 16 A | 30 mA |
| Tomadas da cozinha | 2,5 mm² | 16 A (20 A se possível) | 30 mA |
| Ar condicionado | 2,5 mm² | 16 A | 30 mA |
| Placa/forno eléctrico | 6 mm² | 32 A | 30 mA |
Dois pormenores que fazem diferença no dia-a-dia: identificar cada circuito na tampa do quadro e deixar espaço de reserva na calha. A primeira poupa tempo numa avaria; a segunda evita que, no futuro, alguém «pendure» um circuito novo num disjuntor que já existe.
Disjuntor, interruptor diferencial ou disjuntor diferencial?
| Aparelho | Protege contra | Não protege contra | Onde fica |
|---|---|---|---|
| Disjuntor (MCB) | Sobrecargas e curtos-circuitos | Fugas de corrente pequenas (choques) | Entrada (geral) e cada circuito |
| Interruptor diferencial (RCCB) | Correntes de fuga (≤ 30 mA: protecção adicional das pessoas) | Sobrecargas e curtos-circuitos | A jusante do disjuntor geral, a agrupar circuitos |
| Disjuntor diferencial (RCBO) | As duas coisas, num só aparelho | Sobretensões e defeitos de arco; não dispensa a terra | Num circuito individual crítico |
- Disjuntor: unipolar ou bipolar nos circuitos monofásicos (o bipolar corta também o neutro, recomendável no disjuntor geral); tripolar ou tetrapolar em circuitos e quadros trifásicos.
- Interruptor diferencial de 30 mA: a IEC 60364-4-41 exige protecção diferencial de alta sensibilidade (≤ 30 mA) nas tomadas de uso geral até 32 A utilizadas por pessoas comuns, e a IEC 60364-7-701 nos circuitos das casas de banho. Prefira o tipo A, mais adequado a electrodomésticos com electrónica.
- Disjuntor diferencial: ocupa menos espaço e isola cada circuito — um defeito na máquina de lavar não desliga as tomadas da sala. É a escolha natural para cozinha, casas de banho, exterior e piscina.
Os detectores de arco (AFDD), os descarregadores de sobretensões e os módulos que combinam tudo num só aparelho ficam para o próximo artigo, nesta sexta-feira.
A ligação à terra: parte essencial da protecção contra choques
Na casa que vimos não havia ligação à terra de espécie nenhuma: nem eléctrodo, nem condutor de protecção, nem qualquer esquema reconhecível (TT ou TN-S). As tomadas tinham três furos, mas o terceiro não estava ligado a lado nenhum.
Sem terra, um disjuntor continua a poder actuar num curto-circuito entre fase e neutro, e um diferencial pode disparar quando a corrente atravessa uma pessoa. Mas o objectivo da terra é outro: quando o isolamento de uma máquina falha e a carcaça fica em tensão, o defeito deve ser eliminado pelo caminho da terra, antes de alguém lhe tocar. Para isso, a instalação precisa de um eléctrodo de terra, de um condutor de protecção (verde-amarelo) em todos os circuitos de tomadas e equipamentos, e da ligação equipotencial nas casas de banho. É o que o Decreto n.º 40/04 pede no projecto — o sistema de protecção das pessoas, com os circuitos de protecção e os eléctrodos de terra (art. 6.º, n.º 2, al. g)) — e o que o Decreto n.º 39/04 manda verificar e medir durante a execução (art. 14.º, n.º 3, als. a) e b)).
Numa instalação com eléctrodo de terra próprio (esquema TT), a regra da IEC 60364-4-41 é que a resistência de terra, multiplicada pela corrente diferencial, não ultrapasse 50 V. Com diferenciais de 30 mA, isso dá um máximo de cerca de 1 667 Ω; com 300 mA, cerca de 167 Ω. São limites que resultam desta condição, não valores a perseguir: a terra deve ficar tão baixa quanto o terreno o permita, e continuam a aplicar-se os tempos de corte, a continuidade dos condutores de protecção e as exigências de cada local. Medem-se — não se presumem. Os descarregadores de sobretensões, de que falaremos no próximo artigo, também perdem os modos de protecção ligados à terra quando ela não existe; e o Regime anexo ao Decreto Presidencial n.º 29/15 (arts. 5.º e 8.º) torna obrigatória a protecção contra descargas atmosféricas, segundo a NA 33:2014, no projecto dos edifícios abrangidos.
Tomada de três furos sem fio de terra não é segurança. É decoração.
O que diz a lei angolana
A legislação angolana não fixa calibres de disjuntores nem tipos de diferenciais — essa é matéria das normas técnicas, em que os projectos se apoiam (sobretudo IEC). Mas define com clareza quem tem de projectar, verificar e manter as protecções.
- Lei Geral de Electricidade (Lei n.º 14-A/96, republicada pela Lei n.º 6/25), art. 13.º — o consumidor deve manter as instalações de acordo com as exigências técnicas e utilizá-las dentro da capacidade do sistema e dos regulamentos.
- Decreto n.º 40/04 (Licenciamento de Instalações de Utilização), art. 3.º, n.º 2, al. e) — o projecto é obrigatório para instalações em baixa tensão acima de 20 kVA ou em estabelecimentos que recebem público com mais de 100 m². Muitas casas económicas não se enquadram em nenhuma das categorias do art. 3.º, n.º 2; para esses casos, o art. 4.º prevê a dispensa de projecto, nas condições que fixa e com ficha electrotécnica. A dispensa de projecto não é dispensa das regras técnicas.
- Decreto n.º 40/04, art. 6.º, n.º 2 — quando há projecto, a memória descritiva tem de incluir o dimensionamento dos circuitos e das protecções contra sobreintensidades (al. c)) e o sistema de protecção das pessoas, com os circuitos de protecção e os eléctrodos de terra (al. g)).
- Decreto n.º 39/04 (Estatuto do Técnico Responsável), art. 14.º, n.º 3 — durante a execução, o técnico responsável verifica os eléctrodos de terra e as ligações aos circuitos de protecção (al. a)), mede a resistência de terra (al. b)), verifica a montagem da aparelhagem (al. c)) e ensaia os sistemas de protecção das pessoas e as protecções contra sobreintensidades e sobretensões «eventualmente previstos no projecto» (al. d)).
- Decreto n.º 39/04, art. 17.º, n.º 2 — nas instalações que exigem técnico responsável pela exploração, a entidade exploradora não deve fazer modificações, mesmo não estruturais, sem o seu acordo.
- Decreto n.º 27/01 (Regulamento do Fornecimento), arts. 35.º e 36.º — o fornecedor pode inspeccionar as instalações do cliente e interromper o fornecimento por falta de medidas de segurança.
- Normas angolanas — o catálogo do INIQ inclui as NA 13 a NA 17 (2009) para cabos e condutores; para o resto, os projectos apoiam-se nas normas IEC, que o próprio Decreto n.º 40/04 refere para a simbologia (art. 6.º, n.º 7).
Lido em conjunto: o problema do «curioso» não é a falta de diploma, é a falta de cálculo, de verificação e de responsabilidade técnica — exactamente o que a lei atribui ao técnico responsável. Onde a instalação está sujeita a projecto ou a técnico responsável, um quadro como este não cumpre esses requisitos; em qualquer casa, é a família que paga o choque ou o incêndio. Explicámos porque é que o projecto faz falta no artigo Necessidade de projecto eléctrico em Angola, e porque é que a manutenção é a outra metade da segurança em O grito silencioso das instalações eléctricas.
A posição da WM KA Engenharia
O interruptor diferencial protege pessoas; o disjuntor protege cabos. Um não substitui o outro, e nenhum dos dois dispensa uma ligação à terra a sério.
O calibre de um disjuntor escolhe-se pelo cabo que protege, nunca pela vontade de que «deixe de disparar».
Uma casa económica não precisa de aparelhos caros. Precisa de aparelhos certos, bem ligados e testados.
Conclusões
Do ponto de vista técnico, o quadro que encontrámos tinha aparelhos e pouca protecção: nenhum disjuntor geral (só fusíveis de 63 A na portinhola), um diferencial tetrapolar ligado sem confirmação de compatibilidade, nenhuma ligação à terra e um disjuntor de 63 A num cabo que admite, no máximo, 24 A. A correcção não é cara: um disjuntor geral bipolar, um diferencial compatível e bem ligado (ou um bipolar), disjuntores escolhidos pelo cabo e uma ligação à terra executada e medida.
Do ponto de vista jurídico, a lei angolana pede que as protecções contra sobreintensidades e a protecção das pessoas sejam dimensionadas, verificadas e ensaiadas por um técnico responsável (Decreto n.º 40/04, art. 6.º; Decreto n.º 39/04, art. 14.º), e que o consumidor mantenha a instalação de acordo com as exigências técnicas (Lei Geral de Electricidade, art. 13.º). Um quadro bem feito não é um luxo: é o mínimo que a lei e o bom senso pedem.
Perguntas frequentes
Posso usar um diferencial tetrapolar numa casa monofásica?
Só se o fabricante o admitir, com os terminais que o esquema do aparelho indica — alguns modelos não podem ser usados em monofásico. Quando é admitido, a fase vai ao pólo que alimenta o circuito do botão de teste e o neutro ao N; os outros pólos ficam livres. Teste o aparelho depois de ligar e assegure a protecção contra sobreintensidades do diferencial e dos circuitos, com aparelhos correctamente dimensionados e coordenados segundo as instruções do fabricante. Numa instalação nova, um diferencial bipolar é mais simples e mais barato.
O diferencial protege contra curto-circuito?
Não. O interruptor diferencial só detecta correntes de fuga. A protecção contra sobrecargas e curtos-circuitos é feita pelos disjuntores. O disjuntor diferencial (RCBO) faz as duas coisas num só aparelho.
Que disjuntor devo ter na cozinha?
Depende do cabo. Para tomadas em 2,5 mm², o habitual é 16 A (20 A só se o cabo e a temperatura o permitirem). Placas e fornos eléctricos devem ter circuito próprio, calculado para a potência do equipamento (muitas vezes 6 mm² com 32 A). Um disjuntor de 63 A num cabo de 2,5 mm² não assegura a protecção contra sobrecarga.
Se tenho diferencial, preciso de ligação à terra?
Sim. O diferencial pode actuar quando a corrente passa por uma pessoa, mas a terra é o que permite eliminar um defeito numa carcaça antes de alguém lhe tocar. Os descarregadores de sobretensões também dependem dela nos modos de protecção ligados à terra.
A minha casa precisa de projecto eléctrico?
Depende da potência e do uso. O Decreto n.º 40/04 (art. 3.º, n.º 2) lista os casos em que o projecto é obrigatório — por exemplo, baixa tensão acima de 20 kVA ou estabelecimentos que recebem público com mais de 100 m². Fora dessas categorias, o art. 4.º prevê a dispensa nas condições que fixa, com ficha electrotécnica. Em qualquer caso, as regras técnicas aplicam-se.
Precisa de um diagnóstico? A WM KA Engenharia faz a revisão de quadros eléctricos, a medição da resistência de terra, o ensaio de diferenciais e o redimensionamento de circuitos — em casas, comércio e indústria. Fale connosco.
Leia também: Disjuntores de baixa tensão: porque é que dois disjuntores de 63 A não são iguais · Estabilizadores de tensão em redes degradadas · Necessidade de projecto eléctrico em Angola · O grito silencioso das instalações eléctricas · Os nossos serviços
Referências
- Lei n.º 14-A/96, de 31 de Maio — Lei Geral de Electricidade, republicada pela Lei n.º 6/25, de 23 de Julho (art. 13.º).
- Decreto n.º 27/01 — Regulamento do Fornecimento de Energia Eléctrica (arts. 6.º, 35.º e 36.º).
- Decreto n.º 39/04, de 2 de Julho — Estatuto do Técnico Responsável por Instalações Eléctricas (arts. 14.º e 17.º). Diário da República, I Série, n.º 53.
- Decreto n.º 40/04, de 2 de Julho — Regulamento de Licenciamento de Instalações de Utilização de Energia Eléctrica (arts. 3.º, 4.º, 6.º e 8.º). Diário da República, I Série, n.º 53.
- Decreto Presidencial n.º 29/15, de 13 de Janeiro — aprova o Regime de Protecção Obrigatória contra Descargas Atmosféricas, anexo (arts. do Regime: 5.º e 8.º); Norma Angolana NA 33:2014.
- INIQ — Catálogo de Normas Angolanas, 2024 (NA 13 a NA 17:2009, cabos e condutores).
- IEC 61008-1 — Residual current operated circuit-breakers without integral overcurrent protection (RCCB).
- IEC 61009-1 — Residual current operated circuit-breakers with integral overcurrent protection (RCBO).
- IEC 60364-4-41 — Protection for safety: protection against electric shock.
- IEC 60364-5-52 — Selection and erection of electrical equipment: wiring systems.
- IEC 60364-7-701 — Locations containing a bath or shower.
- Exemplo da Figura 2: ABB FH204 AC (63 A, 30 mA), ligação monofásica conforme a demonstração do canal Eletricity, «Dica para o electricista — como ligar circuitos mono, bi e tri em um IDR tetrapolar». Confirmar sempre no esquema e no manual do modelo instalado: a utilização monofásica depende do fabricante (alguns modelos não a admitem).
- Fotografia da Figura 1: Mark Kats, Unsplash (licença Unsplash).
